Fato: não há dúvidas que o documentário é o que há de melhor no atual cinema brasileiro. Três dos grandes filmes da primeira década do terceiro milênio são do gênero – Serras da Desordem, Jogo de Cena e Santiago. Obras fortes que quebram convenções e diluem a embaraçada fronteira entre ficção e documentário, real e falso. Por certo, seus autores têm consciência, e expõem para o público, que a pretensa idéia dos documentários de captar a realidade tal qual ela é, é falsa.
Filmefobia poderia ser mais uma obra a figurar no panteão das citadas no parágrafo acima. E o filme não sai desta pretensão.
De clara inspiração em Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, o diretor Kiko Goifman convidou pessoas com diversas fobias (desde as mais comuns - medo de altura e sangue - até as mais desconhecidas – medo de anão, borboletas ou botões) para entrarem em confronto com seus temores. No meio, embaralhou atores que apenas representariam, confundindo o espectador quanto àquilo que se passa na tela é verdadeiro ou falso.
Deste mote surgem várias indagações: o que leva uma pessoa a se expor num filme confrontando seus medos - exibicionismo? Vontade de superação? Masoquismo? E um ator pode realmente expressar um sentimento falso? O medo é um sentimento que se manifesta de maneira externa (respiração ofegante, gritos, gestos bruscos) ou interna (o inconsciente amedrontador, a analogia do tigre de papel de Lacan)? E a principal de todas, o que levou os realizadores a fazerem tal filme?
Entra em cena, para tentar responder tal pergunta, o crítico e teórico cinematográfico Jean Claude Bernadet, que profere a frase resumo do filme “A única imagem real é a de um fóbico diante de sua fobia”. E fica claro qual era a pretensão da obra. Longe de ser uma tentativa de análise patológica ou sociológica, busca de causa ou efeito, tentativas que seriam truncadas pela própria estrutura do filme, pois como confiar na análise de um profissional psicológico, onde não é claro quando se estar atuando ou não, o filme se presta unicamente a ser uma ilustração estética do medo no cinema. Estética e estéril. Pois, ao espectador o que resta é uma inconfortável – e o desconforto é o único sentimento despertado pelo que se vê na tela - sensação de voyeurismo, que por final, nos leva até a confrontar porque estamos ali na sala de cinema onde nem o sentimento de sadismo nos foi permitido (o sádico pelo menos sente prazer com o sofrimento que proporciona e vê no outro). É como se o filme apenas duplicasse situações desagradáveis as quais somos expostos no dia-a-dia, brigas matrimoniais em locais públicos, pessoas com síndromes e acidentes diversos, na tela, protelando o sentimento de passividade diante o mundo.
Nessa busca de uma representação plástica do medo no cinema, o filme somente alcança o objetivo quando expõe a única grande fobia que pode assolar um amante desta arte. Jean Claude Bernadet construiu sua vida sobre o viés do cinema, portador do vírus HIV há mais de 20 anos, expõe o seu medo de ficar cego através das decorrências da doença num discurso já no final do filme. E este é o único momento de comoção, pois perder a visão para a arte visual é a mais devastadora das fobias.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
domingo, 10 de maio de 2009
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Se eu Fosse Vocês...
Na semana em que Se Eu Fosse Você 2 atinge a marca de seis milhões de espectadores, eu resolvi vê-lo. Não sem certa restrição, principalmente por não ter visto a primeira parte, embora ache que teria sido de pouca relevância para compreensão desta continuação. A intenção de ver o filme era mais para ter suporte, e assim poder analisar o fenômeno de público, e menos para falar da obra em si. A obra é tola. Porém, tolice nossa, nacional. O que por si só já joga certa luz no filme. Sim, por que essa história de ver comédia hollywoodiana é uma tolice ao quadrado. Importar tolice? Por favor!
Desde 1978, com A Dama da Lotação, nenhuma produção brasileira atingia esta marca. Procurar motivos intrínsecos ao filme para tal feito é tarefa árdua. Por certo, a química e boa atuação dos protagonistas Tony Ramos e Glórias Pires, (Glória Pires saindo-se melhor, menos caricatual), dois dos mais populares atores brasileiros, seja um dos fatores. Os bons diálogos (entre os roteiristas está Adriana Falcão, moça de grande talento para a comédia. É dela também os roteiros de grandes sucessos televisivos como A Grande Família, e cinematográficos como O Ano em Que meus Pais Saíram de Férias, Chega de Saudade e O Auto da Compadecida) pode ser outro. Aliados ao grande sucesso da primeira fita (Se Eu Fosse Você fez público de 3,6 milhões em 2006). Mas ainda é pouco. Porque no mais, a direção de Daniel Filho é desprezível: misè en scene paupérrima, más opções de localização de câmara e uma montagem pseudomoderna de novela das sete. O que se vê na tela também não é de fácil identificação com o grande público. É um Brasil-carioca das megas-casas super protegidas da floresta da Tijuca. E para completar, o filme não parece mirar nenhum público especifico. Fica difícil entender como Se eu Fosse Você 2 subverteu uma lógica hierárquica dos grandes multiplex, que explicitarei mais à frente.Talvez tenha atingido um público por volta dos 40 anos, carentes das comédias brasileiras da década de 80 que passavam nos cinemas, naquela época, encontráveis em qualquer bairro dos grandes centros ou nas praças dos municípios a preços acessíveis. E este fato fala muito sobre o sucesso da fita e o estado geral do cinema nacional como um todo.
A parte da população que vai ao cinema hoje (No caso do Distrito Federal, 90% localizados em shoping centers) depara-se com o valor absurdo do ingresso (próximo aos R$ 20,00 aos fins de semana, fora o preço da pipoca!). Estes cinemas, em sua grande maioria, oriundos de grandes redes de exibições norte-americanas, são voltados para a exibição de filmes de seu país de origem. As fitas nacionais, quando exibida nestas salas, normalmente são de distribuição de empresas também estrangeiras (no caso de Se Eu Fosse Você 2, a Fox Film). A tal lógica dos multiplex que eu havia falado anteriormente e que SEFV2 subverteu é a seguinte: a prioridade de escolha do público se dá por mega produções hollywoodianas com custo superior à centena de milhão de dólares. E este é o motivo pelo qual estas redes de exibição (UCI, Cinemark) estão espalhadas mundo afora, garantir que os valores astronômicos investidos nestas películas possam ser recuperados e aumentar a margem de lucro. Em seguida, o público se divide entre os filmes médios que servem para acolher os desafortunados que não conseguiram ingressos para as sessões lotadas dos grandes lançamentos. E, por último, a fita nacional.
Porém, estas produções brasileiras, ao menos tiveram seu lugar ao sol. Pior caso vive todas as outras de distribuidoras pequenas ou independentes. Estas lutam entre si por espaço de exibição nos cinemas de arte. Estes cinemas localizados nos bairros nobres dos grandes centros (nos grandes centros, porque vai ver se a capital acreana tem cinema de arte?) atendem a um público mais cinéfilo e mais abastado financeiramente, e não menos colonizado culturalmente. E mais uma vez o filme nacional se vê preterido por produções estrangeiras, desta vez fora do eixo hollywoodiano. Os filmes independentes norte-americano, os filmes de arte franceses, as produções espanholas, asiáticas, o que se chama de cinema cult, gabaritados pelos grandes festivais (Cannes, Veneza, Berlim), usurpam, mais uma vez, o público do cinema nacional.
E este é o ranço do escoamento de nossas imagens. Nossa incipiente indústria cinematográfica já consegue produzir uma quase centena de filmes por ano. Em sua grande maioria, (sua quase totalidade, na verdade), amparadas pelas leis de órgãos federais, estaduais e municipais de incentivo a produção. Sem ter contas financeiras a prestar, os diretores, na melhor das hipóteses, acrescentam a sua filmografia fantasma produtos encalhados na prateleira.
Teorias a parte, Se Eu Fosse Você 2 não nos ajuda a destrinchar os meandros deste processo e servir como base, exemplo, para projetos futuros. Parece uma simples querela do público, ou melhor, (ou pior, não sei), um vírus brasileiro que conseguiu burlar as grandes produções hollywoodianas de férias escolares. Uma dessas doenças tropicais típicas do verão, como a dengue.
A quem interessar possa...
- Paguei pelo ingresso do filme o módico valor de R$ 2,00. Perguntei ao rapaz que recolhia os tíquetes na entrada da sala se ele sabia o motivo e ele disse que era porque o filme estava próximo de sair de cartaz. Não contente com a resposta, pesquisei na internet e parece que esta é uma prática comum da rede Cinemark com produções nacionais depois de algum tempo em cartaz. A promoção é válida para as sessões do meio da semana e por volta do horário das 15 horas. Achei gentil da parte do Cinemark...
- A sala estava um terço ocupada. Muito se você levar em consideração que o filme já está a quase 4 meses em cartaz e era uma quinta feira às 15 horas. Em sua maior parte o público era formado por adolescentes matando aula que pouco estavam se lixando para o que se passava na tela - Ouvi gritos do tipo "Ai meu peito" - e no final da projeção um deles comentou que já era a terceira vez que via o filme. Até gostei do clima da sala, acho que combinou bem com o que se passava na tela.
Desde 1978, com A Dama da Lotação, nenhuma produção brasileira atingia esta marca. Procurar motivos intrínsecos ao filme para tal feito é tarefa árdua. Por certo, a química e boa atuação dos protagonistas Tony Ramos e Glórias Pires, (Glória Pires saindo-se melhor, menos caricatual), dois dos mais populares atores brasileiros, seja um dos fatores. Os bons diálogos (entre os roteiristas está Adriana Falcão, moça de grande talento para a comédia. É dela também os roteiros de grandes sucessos televisivos como A Grande Família, e cinematográficos como O Ano em Que meus Pais Saíram de Férias, Chega de Saudade e O Auto da Compadecida) pode ser outro. Aliados ao grande sucesso da primeira fita (Se Eu Fosse Você fez público de 3,6 milhões em 2006). Mas ainda é pouco. Porque no mais, a direção de Daniel Filho é desprezível: misè en scene paupérrima, más opções de localização de câmara e uma montagem pseudomoderna de novela das sete. O que se vê na tela também não é de fácil identificação com o grande público. É um Brasil-carioca das megas-casas super protegidas da floresta da Tijuca. E para completar, o filme não parece mirar nenhum público especifico. Fica difícil entender como Se eu Fosse Você 2 subverteu uma lógica hierárquica dos grandes multiplex, que explicitarei mais à frente.Talvez tenha atingido um público por volta dos 40 anos, carentes das comédias brasileiras da década de 80 que passavam nos cinemas, naquela época, encontráveis em qualquer bairro dos grandes centros ou nas praças dos municípios a preços acessíveis. E este fato fala muito sobre o sucesso da fita e o estado geral do cinema nacional como um todo.
A parte da população que vai ao cinema hoje (No caso do Distrito Federal, 90% localizados em shoping centers) depara-se com o valor absurdo do ingresso (próximo aos R$ 20,00 aos fins de semana, fora o preço da pipoca!). Estes cinemas, em sua grande maioria, oriundos de grandes redes de exibições norte-americanas, são voltados para a exibição de filmes de seu país de origem. As fitas nacionais, quando exibida nestas salas, normalmente são de distribuição de empresas também estrangeiras (no caso de Se Eu Fosse Você 2, a Fox Film). A tal lógica dos multiplex que eu havia falado anteriormente e que SEFV2 subverteu é a seguinte: a prioridade de escolha do público se dá por mega produções hollywoodianas com custo superior à centena de milhão de dólares. E este é o motivo pelo qual estas redes de exibição (UCI, Cinemark) estão espalhadas mundo afora, garantir que os valores astronômicos investidos nestas películas possam ser recuperados e aumentar a margem de lucro. Em seguida, o público se divide entre os filmes médios que servem para acolher os desafortunados que não conseguiram ingressos para as sessões lotadas dos grandes lançamentos. E, por último, a fita nacional.
Porém, estas produções brasileiras, ao menos tiveram seu lugar ao sol. Pior caso vive todas as outras de distribuidoras pequenas ou independentes. Estas lutam entre si por espaço de exibição nos cinemas de arte. Estes cinemas localizados nos bairros nobres dos grandes centros (nos grandes centros, porque vai ver se a capital acreana tem cinema de arte?) atendem a um público mais cinéfilo e mais abastado financeiramente, e não menos colonizado culturalmente. E mais uma vez o filme nacional se vê preterido por produções estrangeiras, desta vez fora do eixo hollywoodiano. Os filmes independentes norte-americano, os filmes de arte franceses, as produções espanholas, asiáticas, o que se chama de cinema cult, gabaritados pelos grandes festivais (Cannes, Veneza, Berlim), usurpam, mais uma vez, o público do cinema nacional.
E este é o ranço do escoamento de nossas imagens. Nossa incipiente indústria cinematográfica já consegue produzir uma quase centena de filmes por ano. Em sua grande maioria, (sua quase totalidade, na verdade), amparadas pelas leis de órgãos federais, estaduais e municipais de incentivo a produção. Sem ter contas financeiras a prestar, os diretores, na melhor das hipóteses, acrescentam a sua filmografia fantasma produtos encalhados na prateleira.
Teorias a parte, Se Eu Fosse Você 2 não nos ajuda a destrinchar os meandros deste processo e servir como base, exemplo, para projetos futuros. Parece uma simples querela do público, ou melhor, (ou pior, não sei), um vírus brasileiro que conseguiu burlar as grandes produções hollywoodianas de férias escolares. Uma dessas doenças tropicais típicas do verão, como a dengue.
A quem interessar possa...
- Paguei pelo ingresso do filme o módico valor de R$ 2,00. Perguntei ao rapaz que recolhia os tíquetes na entrada da sala se ele sabia o motivo e ele disse que era porque o filme estava próximo de sair de cartaz. Não contente com a resposta, pesquisei na internet e parece que esta é uma prática comum da rede Cinemark com produções nacionais depois de algum tempo em cartaz. A promoção é válida para as sessões do meio da semana e por volta do horário das 15 horas. Achei gentil da parte do Cinemark...
- A sala estava um terço ocupada. Muito se você levar em consideração que o filme já está a quase 4 meses em cartaz e era uma quinta feira às 15 horas. Em sua maior parte o público era formado por adolescentes matando aula que pouco estavam se lixando para o que se passava na tela - Ouvi gritos do tipo "Ai meu peito" - e no final da projeção um deles comentou que já era a terceira vez que via o filme. Até gostei do clima da sala, acho que combinou bem com o que se passava na tela.
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